Arquitetura no feminino

Historicamente o mundo da arquitetura está associado ao género masculino. Contudo, hoje as mulheres têm cada vez maior protagonismo. Uma perspetiva das mulheres na arquitetura num dia em que se celebra o Dia Internacional da Mulher.

 

Apesar da profissão de arquiteto e da história da arquitetura estar associada cultural e socialmente ao género masculino, hoje as mulheres têm cada vez mais espaço no mundo da arquitetura.

 

Zaha Hadid

Quando falamos em grandes nomes da arquitetura internacional no feminino provavelmente o primeiro nome que nos vem à cabeça é o de Zaha Hadid (1950-2016). Foi a primeira mulher a ser galardoada com o prémio Pritzker de Arquitetura 2004. Em 2016 recebe individualmente o Royal Gold Medal do RIBA.  A sua arquitetura sempre foi ousada e inovadora.

 

Marion Mahony Griffin

Mulheres na Arquitetura - Marion Griffin

Também na história da arquitetura moderna muitas mulheres estiveram ao lado dos grandes mestres, embora o seu trabalho passasse despercebido para a maioria. Marion Mahony Griffin (1871-1961) é uma das primeiras mulheres no mundo licenciada em arquitetura. Trabalhou ao lado de Frank Lloyd Wright, sendo suas muitas das aguarelas do compêndio de desenhos de Wright.

 

Lina Bo Bardi

Mulheres na Arquitetura - Lina Bo Bardi

Lina Bo Bardi (1914-1992) nasce e forma-se em Itália. Em 1946 muda-se para o Brasil, onde se naturaliza. Fascinada pela arquitetura moderna, a sua arquitetura detém uma linguagem clara e simples. Dá importância à envolvente e à cultura local. É autora de projetos de destaque no Brasil, como o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e a Casa de Vidro.

 

Kazuyo Sejima

Mulheres na Arquitetura - Kazuyo Sejima

Kazuyo Sejima é uma arquiteta japonesa galardoada em 2010 com o prémio Pritzker. É sócia fundadora do escritório SANAA, sediado em Tóquio. Tem projetos como o New Museum, em Nova Iorque, o Louvre-Lens, em França e a Shibaura House, no Japão. Foi a primeira mulher nomeada Diretora do Setor de Arquitetura da Bienal de Veneza 2010.

 

Amanda Levete

Mulheres na Arquitetura - Amanda Levete

Amanda Levete é uma arquiteta britânica conhecida entre nós por ter projetado o recém inaugurado MAAT, em Lisboa.  A ideia base do projeto é que o edifício forme parte da paisagem, constituindo-se num enorme miradouro sobre o Tejo. Revestido a azulejos, a forma curva do novo museu reflete a luz, assumindo diferentes tonalidades consoante a hora do dia. Amanda Levete é sócia fundadora do atelier AL_A com sede em Londres.

 

Em Portugal

Maria José Estanco (1905-1999) foi a primeira mulher a licenciar-se em arquitetura em Portugal. Apresentou como tese um projeto do que poderia ser o primeiro Jardim-Escola João de Deus a ser construído no Algarve. Este não passou do papel. Apesar de ter tentado trabalhar em vários ateliers nunca conseguiu exercer a profissão. Enveredou pela docência.

Maria Carlota Quintanilha licenciou-se em arquitetura pela ESBAP em 1953. Juntamente com o seu marido o arquiteto João José Tinoco vão viver para Moçambique. Para além da atividade no ensino colabora na conceção de edifícios de diferentes escalas e tipologias. A sua arquitetura baseia-se nos princípios do modernismo, em especial na arquitetura de Le Corbusier. Ao longo do seu percurso profissional enfrentou obstáculos inerentes à desigualdade de género característico da época.

Helena Roseta, arquiteta e política,  é a prova que as mulheres também podem chegar aos lugares de topo. Licenciada em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa trabalhou no início de carreira com o arquiteto Nuno Portas e na recuperação de bairros clandestinos. A partir de 1974 envereda pela política tendo sido deputada, vereadora da Câmara de Lisboa e Presidente da Câmara de Cascais. Entre 2001 e 2007 exerce o cargo de Presidente da Ordem dos Arquitetos.

 

Hoje nas faculdades e no mundo laboral o número de arquitetas versus arquitetos é tendencialmente equilibrado. É crescente o número de arquitetas com obras de referência e fundadoras de ateliers de arquitetura.

 

Inês Lobo

Mulheres na Arquitetura - Inês Lobo

Licenciada pela Universidade Técnica de Lisboa, Inês Lobo tem atelier próprio desde 2002. Entre as suas obras destaca-se o Complexo de Artes e Arquitetura da Universidade de Évora, escolas do Programa Parque Escolar em Coimbra e na Figueira da Foz e um conjunto de habitações em Óbidos. Recebeu o prémio arcVision – Women and Architecture 2014, que distingue mulheres no mundo da arquitetura.

 

Paula Santos

Mulheres na Arquitetura - Paula Santos

Paula Santos , licenciada pela FAUP, desenvolve a sua atividade em atelier próprio desde 1999. Tem projetos na área da habitação, urbanismo, edifícios públicos, escritórios e projetos de interiores, entre outros. Foi gestora da obra da Igreja da Santíssima Trindade em Fátima. É de sua autoria o novo presbitério do Santuário de Fátima, que se espera que seja “inaugurado” pelo Papa Francisco na sua visita a Fátima em maio de 2017.

 

Cristina Veríssimo

Mulheres na Arquitetura - Cristina Veríssimo

Trabalhou três anos e meio com Zaha Hadid em Londres, nos anos 80. Desde 2000 está à frente do atelier CVDB Arquitetos com Diogo Burnay. Paralelamente dá aulas na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa. Do seu curriculo faz parte o projeto da Escola Secundária Braancamp Freire, premiado com o Wan Award 2013, e o Museu do Tapete de Arraiolos.

 

Graça Correia

Mulheres na Arquitetura - Graça Correia

Graça Correia é licenciada pela FAUP. Em 1995 inicia atividade profissional em atelier próprio e em 2005 funda com Roberto Ragazzi o atelier Correia Ragazzi, arquitectos. Destacamos duas das suas mais conhecidas obras: uma habitação no Gerês e a recente reabilitação de um apartamento em Braga, vencedor do prémio best architects 16, na categoria arquitetura de interiores.

 

Cristina Guedes

Mulheres na Arquitetura - Cristina Guedes

Cristina Guedes é licenciada pela FAUP, fundando com Francisco Vieira de Campos o atelier Menos é Mais em 1994 no Porto. Entre as suas obras destacam-se os bares-esplanada na marginal de Vila Nova de Gaia, a Adega da Quinta do Vallado e o Teleférico de Vila Nova de Gaia. Os seus trabalhos têm sido frequentemente nomeados para prémios internacionais de arquitetura, tendo sido galardoados com o RIBA International Fellows 2017.

 

Mas a atividade de um arquiteto(a) não se esgota no trabalho em atelier. Muito(a)s encontraram outros caminhos que partem de uma formação base na arquitetura, que lhe dá um olhar diferenciado sobre a cidade e o edificado, e enveredam por áreas paralelas.

 

Investigação – Prémio Fernando Távora

O Prémio Fernando Távora é aberto a todos os membros da Ordem dos Arquitetos e atribui anualmente uma bolsa de viagem de 6000€ à melhor proposta de viagem de investigação.

Em 2011, Marta Pedro, licenciada pelo DARQ-UC, foi a vencedora com a proposta de viagem A song to Heaven ou o Japão sublime em Frank Lloyd Wright: da viagem de 1905 ao legado na arquitectura moderna japonesa. A arquiteta trabalha em Tóquio desde 2005.

 

Na edição deste ano, Maria Neto, investigadora da FAUP, venceu com um projeto As cidades invisíveis de Dadaab. A viagem irá leva-la até ao Quénia para estudar o maior complexo de campos de refugiados do mundo.

 

 

Fotografia – Instagram

Ana Barros uma jovem arquiteta que vive em Viena, na Áustria, é a primeira portuguesa a viver do Instagram. Tem 355 mil seguidores publicando regularmente fotografia de arquitetura. O seu perfil é um dos recomendados pela própria aplicação. Paralelamente continua a exercer trabalho de atelier.

 

Ilustração

Pintora, ilustradora e arquiteta Ana Aragão é apaixonada pelas cidades, o tema das suas composições. Formada pela FAUP trocou a arquitetura pela ilustração. É sua a ilustração de Portugal para o jornal Homeland News for Portugal, que representou o país na Bienal de Veneza de 2014.

 

No dia-a-dia da maioria dos ateliers e de funções públicas a presença feminina é tão familiar e inquestionável, que muitos criticam a pertinência do tema das mulheres na arquitetura.

Quem é mulher e arquiteta em Portugal, como eu, entende que, embora nunca tenha sentido discriminações, ainda há chão a percorrer na luta pela igualdade de género. Os principais obstáculos estão ligados à conciliação entre maternidade/profissão e ao acesso a cargos de topo. Problemas comuns a outras profissões.

Porque superar desafios torna a vida mais interessante, a arquitetura no feminino faz-se em qualquer área que decidamos abarcar: projeto, obra, investigação, ensino, fotografia, escrita…

Feliz Dia Internacional das Mulheres!

 

Publicado: 8 março 2016 | Atualizado: 8 março 2017

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