Cottinelli Telmo

Arquiteto de múltiplos talentos, Cottinelli Telmo é responsável por obras de vulto do período do Estado Novo, nomeadamente pelo plano da Exposição do Mundo Português de 1940, em Lisboa.


Cottinelli Telmo


Cottinelli Telmo (1897-1948) nasce em Lisboa a 13 de novembro. Filho de músicos, desde o Liceu que revela apetência por várias vertentes das artes. Arquiteto, cineasta, autor de BD, músico, gráfico, fotógrafo são algumas das atividades que exerce, nos seus 50 anos de vida.

Licencia-se em 1920, em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Inicia de imediato a sua atividade como arquiteto, participando em paralelo noutros projetos artísticos e culturais.

“O Pirilau que vendia balões”

Em 1920, com ilustrações e textos da sua autoria, Cottinelli Telmo cria a BD: “Aventuras inacreditáveis (e com razão) do ‘Pirilau’ que vendia balões”. O sucesso alcançado leva-o a lançar a primeira revista infantil em Portugal: o ABCzinho. Assume a sua direção entre 1921 e 1929.

Arquitetura

Cottinelli Telmo pertence à primeira geração modernista portuguesa, da qual faziam parte arquitetos como Cristino da Silva e Cassiano Branco. A sua arquitetura caracteriza-se pelo uso de formas simples, sem ornamentos. É conotado como um arquiteto do Estado Novo, uma vez que por convite de Duarte Pacheco, desenvolveu projetos de arquitetura pública. Dado a sua colaboração, de cerca de 20 anos com os caminhos-de-ferro é também conhecido pelo arquiteto da Companhia.

Logo no início da sua carreira como arquiteto, em associação com Carlos Ramos e Luís Cunha, Cottinelli vence o concurso para o Pavilhão de Honra de Portugal na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1920-21.

A obra de Cottinelli Telmo no caminho-de-ferro português

A partir de 1923 Cottinelli Telmo integra a Divisão de Construção da Companhia de Caminhos de Ferro (CP), onde projeta numerosos edifícios. Adota uma linguagem modernista, que contrasta com o “porteguesismo” da tradicional arquitetura dos caminhos-de-ferro. Faz ainda trabalho gráfico das publicações, documentários e estudos para os uniformes dos trabalhadores.

Estação Nova
Estação Nova de Coimbra

Coimbra, 1923-30

 

Sanatório da Covilhã
Sanatório das Penhas da Saúde

Covilhã, 1927
Foi mandado construir pela CP para tratamento de tuberculose dos seus funcionários. Recentemente foi recuperado, com projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura, que procurou manter o carácter de “serenidade monumental” do traço de Cottinelli Telmo.
Foto: Estudio Mário Novais, 1940 – Fund. Calouste Gulbenkian

 

Estação do Carregado
Estação do Carregado

Carregado, 1930-31
Fotografia: Refer

 

Torre de Sinalização do Pinhal Novo
Torre de sinalização do Pinhal Novo

Pinhal Novo, 1936-38
Fotografia: Diogo Martins – Flickr

Bairro Camões
Bairro Camões

Entroncamento, 1923-28
Inspirado nos modelos da “cidade jardim”, foi projetado em parceria com o arquiteto Luís da Cunha. Inclui um conjunto de casas e uma escola, exemplar na época pela conformação espacial e solução arquitetónica.

 

Estação Fluvial do Sul e Sueste
Estação Fluvial do Sul e Sueste

Lisboa, 1928-32
Este projeto assume-se como o primeiro grande projeto modernista de Cotinelli. Tem uma linguagem de geometrias elementares e estrutura em betão armado. O projeto de reabilitação é da arquiteta Ana Costa, neta de Cottinelli Telmo.
Fotografia da Estação vista do rio – 1932

 

Estação de Vila Real de Santo António
Estação de Vila Real de Santo António

Vila Real de Santo António, 1936-45
Fotografia: Mapio

 

Torre de controlo de Campolide
Torre de controlo de Campolide

Lisboa, 1940
Fotografia: Nuno Morão – Flickr

 

“A Canção de Lisboa”

Para além da arquitetura, Cottinelli Telmo assume um papel de referência na filmografia portuguesa. Em 1932 cria o estúdio da Tobis em Lisboa. Em 1933, realiza A Canção de Lisboa, o primeiro filme sonoro integralmente produzido em Portugal. Com a participação de Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva é um dos mais conhecidos filmes de “comédia à portuguesa”.

 

Obra pública

Em 1934 a convite de Duarte Pacheco integra a Comissão das Construções Prisionais. Projeta, entre outros, o estabelecimento prisional de Alcoentre, inaugurado em 1944.

Em 1938 é nomeado arquiteto chefe da Exposição do Mundo Português, que se realiza em 1940, frente aos Jerónimos, em Belém. É encarregue de criar o Plano Geral, incluindo arranjos urbanísticos, como a Praça do Império, e o desenho de vários equipamentos, como pavilhões, portas de entrada e o monumento dos Descobrimentos. Este trabalho permite-lhe coordenar uma equipa multidisciplinar que reunia os melhores arquitetos e artistas plásticos da sua geração. Esta viria a ser uma obra emblemática do Estado Novo.


  
Desenhos de Cottinelli Telmo em Padrão dos Descobrimentos

 
 
Fotografias: Mário Novais,1940 – Biblioteca da Fund. Calouste Gulbenkian (Flickr)

Desenharia ainda outras obras como o recinto do Santuário de Fátima e o Liceu de Lamego.

Outra obra do Estado Novo, de que é autor conjuntamente com Cristino da Silva, é o plano de renovação da Cidade Universitária de Coimbra. Esta obra é muito criticada porque delapidou grande parte do património histórico da chamada Alta de Coimbra, expulsando a população residente e impondo uma nova escala, de carácter monumentalista, à cidade existente.

Desenho de Cottinelli Telmo in Padrão dos Descobrimentos

 

Em 1945-48 projeta a Standart Eléctrica, na Av da India em Lisboa.

Imagem: Restos de Colecção

Esta encomenda de obra pública pelo Estado Novo, e a conotação negativa que a este está associado, acabaria por lhe trazer o estigma de arquiteto do Regime.

I Congresso Nacional da Arquitetura

Cottinelli Telmo foi Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitetos, entre 1945 e 1948. Nessa condição organizou o I Congresso Nacional da Arquitetura, em maio de 1948. Nele se evidenciou o descontentamento geral da classe com o Regime. Também Cottinelli Telmo se mostra defensor da liberdade de conceção e de uma reformulação do ensino da arquitetura. Este congresso marca um ponto de viragem na história da arquitetura portuguesa.

Cottinelli morre prematuramente aos 50 anos.

 

+INFO

Lista completa de obras – DGPC

 

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