Arquitetura só por arquitetos

Como autora deste blogue e como arquiteta achei pertinente expressar a minha opinião sobre um tema que voltou à discussão recentemente: o direito de só os arquitetos fazerem arquitetura.

É um artigo parcial que expõe a minha posição, mas que sinto ser partilhada por muitos outros arquitetos. Não esperem encontrar uma escrita isenta e imparcial como me é hábito.

 

Acredito que no setor da construção há lugar para todos: arquitetos, engenheiros e outros profissionais da construção. O pretexto da falta de trabalho não é desculpa para a usurpação de funções de umas classes profissionais por outras.

 

“Arquitetos vão passar a operar doentes em lista de espera com mais de dois anos. A classe acredita que está habilitada para o efeito, visto lidar com x-actos desde a tenra idade.”

A provocação humorística surgia no lançamento da petição pelo direito à arquitetura de 2015.

 

A questão que abriu novamente agora uma guerra entre engenheiros e arquitetos é: quem pode assinar um projeto de arquitetura?

A mim a resposta parece-me óbvia. Só os arquitetos. Afinal somos 24 mil inscritos na Ordem dos Arquitetos (OA), 15 mil na plenitude de exercício das suas funções. É um número mais que suficiente para cobrir toda a área do território português.

Compreendo que no passado, face à falta de profissionais, se permitisse que para além dos arquitetos também engenheiros e projetistas assinassem arquitetura, ao abrigo do Decreto-Lei 73/73. Mas a conjuntura mudou. O 73/73 foi revogado pela Lei 30/2009. Também a Lei 227/XII garante que os projetos de arquitetura só podem ser assinados por arquitetos.

 

Reticências…

Deveria ser um ponto final, mas a Ordem dos Engenheiros coloca reticências… Vem reclamar direitos adquiridos por um grupo de engenheiros que têm mais de 40 anos de experiência. O grupo inclui profissionais que iniciaram o curso até 1986/87, numa das instituições públicas, e que comprovadamente tenham mantido atividade como projetistas.

Mas será que a pretexto da garantia do direito desta minoria, não começará a reinstalar-se a ideia que “todos podemos fazer arquitetura”?

Querem assinar projetos de arquitetura, tirem o curso e inscrevam-se na OA.

 

Em defesa dos direitos dos arquitetos…

Ao longo do meu percurso profissional trabalhei com vários engenheiros e sempre me pareceu consensual que cada um tem a sua função nas diferentes fases de projeto e obra. Sempre acreditei que através do trabalho em equipa se garante uma melhor qualidade dos espaços, em termos estéticos, construtivos e até funcionais.

O atrito avivou-se por haver falta de trabalho, mas usando a sabedoria popular “os fins não justificam os meios”.

Dificuldades, enfrento-as todos os dias. Escassez de trabalho, desrespeito pela classe, pela profissão, pelo conhecimento adquirido, pouca compensação económica, desigualdade de oportunidades.

Na realidade em que me movo, longe do grande Porto e Lisboa, perante um cliente particular, muitas vezes só nos contratam porque é exigido pela Câmara. Há trabalhos em que o próprio cliente quer “projetar” e dirigir a sua obra. Às vezes a “coisa” corre mal…

Ainda assim acredito que há lugar para todos, que há que descobrir novos caminhos e que com o tempo se perceberá que contratar um arquiteto é uma mais-valia.

 

+INFO

A Arquitetura é para os arquitetos – a posição do arquiteto José Manuel Pedreirinho, presidente da Ordem dos Arquitetos, expressa no Jornal Económico

 

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